16 de outubro de 2012

Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Crítica realizada pelo colaborador Alexandre Innani Justus.


Mais uma vez se comprova a versatilidade de Martin Scorsese em traduzir roteiros variados de cinema com uma ótica única, substancial, genuína. Do noir, ao clássico narrativo, do Neo realismo, ao cinema documentário, do dualista religioso de “A Última Tentação de Cristo”, ao existencialista “Taxi Driver”, o aclamado diretor soube com precisão caminhar entre diferentes movimentos cinematográficos e à isso se deve em grande parte ao envolvimento e paixão declarada do mesmo à sétima arte.

Seu mais recente longa-metragem, “A invenção de Hugo Cabret”, traduz exatamente este sentimento passional e nostálgico de Scorsese frente à história do Cinema. Provavelmente muitos espectadores deste filme talvez venham a considerá-lo maçante, tedioso, comparado à outros filmes de roteiro e diálogos mais incisivos do diretor, como “Os Infiltrados”, ou “Vivendo no Limite”. Todavia, essa sensação provavelmente é proveniente do desconhecimento do grande público às inúmeras referências cinematográficas que a película nos proporciona no decorrer da sua história, ao fato de que grande parte dessas referências são oriundas do longínquo cinema mudo, algumas inclusive, derivadas dos primórdios da existência do cinematógrafo, no início do século XX. 

Embora grande parte da riqueza do filme fique perdida sem a assimilação destas referências, ainda assim o filme é excelente. A começar pelo elenco: Asa Butterfield, que já havia demonstrado seu valor no drama de guerra “O menino do pijama listrado”, encarna satisfatoriamente o personagem título, e porque não dizer, ao alter-ego da própria perspectiva de Scorsese enquanto amante do cinema. Sacha Baron Cohen, fecha o papel do intimidador e abobalhado guarda e obstáculo do protagonista de maneira competente . Naturalmente que a grande atuação fica por conta do consagrado e premiado ator Ben Kingsley, que faz uma memorável interpretação do visionário diretor, produtor e roteirista, Georges Méliès. 

De maneira habilidosa, o roteiro transcende a ficção, entreposta ao desfecho verídico do filme, atingindo de certa forma uma contextualização técnica de roteiro, expondo a dicotomia entre o diretor homenageado Georges Méliès (cinema ficcional e lúdico) aos contemporâneos irmãos Lumiére (cinema consuetudinário). A maior evidência dessa contextualização se nota nas duas cenas do trem em direção ao menino: uma delas extravagante, imaginária, e a outra transposta à realidade do filme, e facilmente associada a uma das principais cenas banais gravadas pelos irmão Lumiére, a locomotiva em direção paralela a câmera, que assustava platéias à mais de 100 anos atrás. Além das inúmeras metáforas que o roteiro dispõe, principalmente acerca do autômato, o filme é recheado de Easter Eggs. Aparições não mencionadas de outros personagens históricos, como Salvador Dalí, ou as cenas aleatórias e praticamente despercebidas do produtor do filme Johnny Depp e do próprio Scorsese como coadjuvantes, somam-se à obra. 

Fica a homenagem de Martin Scorsese ao grande diretor que idealizou e vislumbrou a perspectiva de cinema que temos hoje, e que para muitos, ainda é um desconhecido. Essencial para admiradores da sétima arte. À todos que tiverem disponibilidade, assistam em 3D, inúmeros flashs de curta-metragens que costumavam apavorar os espectadores de filmes no início do século XX dada a novidade do cinema na época, ainda podem dar sustos hoje em dia, graças ao artifício bem-sucedido da tecnologia de imagem tridimensional.




Um comentário:

Jonathas Lupion disse...

Parabéns ao crítico! Análise muito bem aplicada ao filme do ídolo Scorsese.