13 de março de 2012

Notícias | 13/03

Rodrigo Santoro encarna o ex-jogador de futebol Heleno de Freitas, no longa "Heleno"

Parece que após a estréia de "O Artista" (vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2012), o cinema decidiu voltar a filmar em preto e branco. A cinebiografia "Heleno", que tem Rodrigo Santoro como protagonista e Aline Moraes, utiliza esta técnica. O filme foca no temperamento polêmico do ex-atacante do Botafogo, que faleceu em 1959, vítima de sífilis. O trailer já está na rede e é esperar para conferir. Dica para as mulheres: Rodrigo Santoro está LINDO.


Começa dia 22 de março em São Paulo e no Rio de Janeiro o Festival Internacional de Documentários "É Tudo Verdade"

Para as pessoas que acham que no Brasil não existe produção de documentários, aí vai a dica d'A Bilheteria. O evento, que terminará no dia 1º de abril, tem entrada franca e fará a retrospectiva do diretor Eduardo Coutinho. Além disto, os dois primeiros filmes que serão exibidos terão a temática da "Tropicália", movimento encabeçado por artistas como Tom Zé e Mutantes. Com certeza música de qualidade não faltará!



Livro "Jogos Vorazes" (Hunger Games, em inglês) da escritora Suzanne Collins ganha adaptação para o cinema

Se você é adolescente e curte filmes como Harry Potter (Bom, este filme já é da minha época) e a Saga Crepúsculo, então você irá adorar o longa "Jogos Vorazes", que estreia dia 23 de março no Brasil. Por ser um filme que mistura mitologia e ficção científica, provavelmente chamará a atenção do público jovem. Talvez a protagonista, vivida pela atriz Jennifer Lawrence (X-MEN: First Class), torne-se a próxima Bella Swan, sem Edward.Assista o trailer aqui.



Sasha Baron Cohen ataca novamente!

Após a queda de tantos ditadores, o humorista Sasha Baron Cohen (Borat) decide fazer o filme "O Ditador", ironizando os ex-chefes de Estado dos países do Oriente Médio. A medida é a mesma: pornochanchada, sotaques exagerados e a realidade escancarada de modo sarcástico. O longa ainda conta com a atriz Megan Fox (Transformers). Quer ver o trailer? Veja
aqui!






9 de março de 2013 chegará aos cinemas o remake do longa Robocop

Parece que os cineastas brasileiros estão investindo no mercado internacional. A exemplo de Walter Salles, o diretor José Padilha (Tropa de Elite) decidiu fazer o remake do filme americano Robocop. Quem fará o policial do futuro é o ator Joel Kinamman (da série The Killing). Agora é esperar para ver se José Padilha consegue fazer o mesmo trabalho sensacional que fez em Tropa de Elite.


Especial | 2001: Uma Odisseia No Espaço


Nada mais digno do que 2001: Uma Odisseia no Espaço pra fechar o Especial de Stanley Kubrick. Digo desde já que esse vai ser um post incomum, não trata-se de análise, nem crítica (em termos), prefiro chamar de comentário especial. Ao ver 2001 e declarar que "entendeu" o filme em uma sacada só é quase que uma piada. Kubrick modelou o filme com a intenção consciente de que cada um tivesse sua própria interpretação da sequência de imagens, de que cada pessoa tivesse uma relação especial com o longa.

Feito em 1969 com um formato pra lá de diferente, A Odisseia inova em todos as categorias da sétima arte: roteiro, fotografia, efeitos especiais, roteiro adaptado, direção de arte, enfim, se alguma nova categoria for inventada, 2001 irá se ajustar a ela e preencherá todos os requisitos para ser campeã. O que sinto ao ver um filme como esse é que todos os outros filmes são caixas, caixas vazias e que esse, em especial, tem uma caixa por minuto e que essa caixa foi minunciosa e perfeitamente completada por Kubrick. O filme é rico nos sentidos.

O filme com pouquíssimas falas e muito conteúdo engloba temas como renascimento, vida, humanidade, valores, religião, velhice, relações e uma infinidade de assuntos criados pelo seu subconsciente e de todos que o vem. O elo do filme trata-se de um monólito, conta-se "a origem das espécies", um grupo de macacos, a descoberta da ferramenta, dos sentimentos e das vontades é representado sintetizadamente por um osso ao som da belíssima "Danúbio Azul", o osso é lançado ao ar e milênios se passam. Em um realidade distante da dos macacos, encontra-se a nave Discovery - comandada por uma máquina intitulada HAL - que abriga astronautas que têm como missão a investigação de um monólito que fora descoberto por geólogos na lua. Em um piscar de olhos o astronauta sobrevivente interpretado por Keir Dullea, viaja quebrando as barreiras do tempo e espaço e se vê num velhice que o destrói gentilmente, para que depois de a morte ele possa finalmente renascer. Renascer. Renascer é a palavra chave de 2001.

Produzido para gosto distinto, arrisco dizer que 2001: Uma Odisseia no Espaço é uma obra prima, não somente da sétima arte, como também da humanidade, o filme tornou-se parte da história do homem e exemplifica seu carácter, seu surgimento, seu suposto destino. "Com ampla repercussão, mas ainda único, friamente distanciado, obsessivo, pretensioso , confuso e para sempre fascinante", faço das palavras de Angela Errigo as minhas ao me referir ao filme. Para maiores explicações, recomendo ver o filme repetidas vezes, interpretar sem sentir medo de arriscar, para depois ler uma análise, não do filme em si, mas sim dos elementos que o constituem, a obra prima foi feita - só pode - para ser atual em qualquer época em que seja assistida, para ser impactante e principalmente, marcante em sua relação íntima com o telespectador.

Notícias | 12/03

Adaptação d'A Torre Negra (aquela série ENORME do Stephen King) tem nova chance de ser adaptada para as telonas

Como fã do escritor e da obra The Dark Tower - sete volumes imensos - eu gostaria muito de ver ao menos uma pseudo adaptação, e, depois de ter sido rejeitada pela Universal, mantendo contato com a Warner Bros, a ideia está prestes a fechar contrato com a Imagine Entertainment. Agora é esperar. 





A versão divertida da Branca de Neve, com a Julia Roberts, Espelho Espelho Meu, liberou vários clipes

Aqui você confere quatro clipes do que tem TUDO para ser um excelente filme. A fotografia aparenta ser bem idealizada e mesmo os pôsteres são bem humorados. É impossível não rir ao ver uma foto da Julia Roberts com a frase "Você quer dar uma mordida?" e não rir. Mirror Mirror está sendo produzido pelo diretor de Imortais, Tarsen Singh. A coisa vai ser grandiosa!




• BU! Trailer de [• REC] Gênesis abala mostrando uma nova face da continuação do terror espanhol

OK, amei os dois primeiros filmes. Quando vi o primeiro poster do filme - no meio do ano passado - e soube que ele se passaria em um casamento, e explicaria a origem da infecção (podem deixar que antes do final do mês faremos um post "resumão" para que você não se perca no meio da história), fiquei louco de feliz. Confira e crie sua opinião. Esse é o prelúdio, e ainda esse ano sai o filme que dará desfecho à explicação da pandemia, com [• REC] Apocalypse (engraçado, não? Gênesis e Apocalypse = primeiro e último livros da bíblia, respectivamente). 


• Apostando alto, diretor de Os Vingadores vai colocar a versão completa das filmagens nas telonas

Sabe aquele "Director's Cut" dos dvd's, que mostram cenas que, por uma questão de falta de tempo, foram cortadas do filme, para que ele tivesse cerca de 90 minutos? Pois Joss Whedon vai colocar seus 135 minutos inteirinhos no cinema. Controvérsias ao fato de quanto isso atrairia fãs e cansaria o público não tããããão ligado assim em cinema é grande, mas, dia 27 de abril o público poderá assistir 2h15 de Vingadores. 




• Lançamento do teaser que mostra o que nos aguarda em Prometheus surpreende na produção

Sim, são 21 segundos, mas só de saber que o universo Alien está de volta ao cinema e que a sinopse promete MUITO, a expectativa é grande e a possibilidade de frustração é POUCA. Será que os recursos serão bem utilizados? O teaser foi liberado no youtube hoje, no canal Prometheus. 



• Fontes: 

12 de março de 2012

Crítica | Na mira do chefe

“A great day this has turned out to be. I'm suicidal, me mate tries to kill me, me gun gets nicked and we're still in fookin' Bruges!”
...
Tudo começa com uma bela e calma trilha sonora em piano, algumas tomadas de construções antigas, medievais, meio obscuras e sombrias e uma voz, com um puta sotaque irlandês, narrando os acontecimentos que o levaram para aquele lugar.
Dessa narração, o filme pula para uma tomada fechada de dois irlandeses, em uma paisagem gelada, da qual só se vê o topo da torre de um castelo e alguns galhos congelados, sem folhas. Os dois discutem se Bruges é, ou não, “a shithole”. Um buraco de merda, em tradução literal. Ah, vale lembrar que os irlandeses são Colin Farrel, como Ray, e Brendan Gleeson, como Ken. Isso já garantiu que eu ficasse para ver o filme inteiro.
E não me arrependi. Ambos são assassinos contratados e, aparentemente, o último trabalho não saiu como o esperado. O alvo morreu, mas algo deu errado. Então o chefão (Ralph Fiennes, para aumentar o grupo de astros) mandou-os “dar um tempo” em Bruges, por umas duas semanas, para deixar a poeira baixar enquanto esperam por novas ordens.
No inicio ninguém entende o porquê dessa escolha de destino para as “férias”. Ken, mais velho e tranquilo, fica sossegado com a ideia de umas férias em uma cidadezinha como aquela. Ray, hiperativo, mais simplista do que o parceiro e aparentemente incomodado com alguma coisa, odeia o lugar. E o fato de ter de dividir um quarto com o parceiro. (For two weeks? In fucking Bruges? In a room like this? With you? No way).
Para completar, os dois não se entendem muito bem e estão o tempo todo discutindo. E as discussões deles são sensacionais! Os desgraçados são muito engraçados. E não no estilo Adam Sandler de engraçados. Todo o filme é carregado de muito humor negro, do começo ao fim. Um humor que se encaixa perfeitamente no drama que eles estão passando. Alguma coisa assombra Ray o tempo todo. E estar em Bruges não ajuda a abrandar a situação. Ele fica paranoico, depressivo e agitado. Lentamente, os dois assassinos começam a se tornar amigos. Mas as discussões continuam malditamente divertidas.
E aí em diante “the plot thickens”, a trama se adensa, descobrem-se os planos de Harry, o chefe, e surgem novos elementos, como Chloe, a nativa, com quem Ray "sai para jantar" e Jimmy, o anão racista, astro do filme que estava sendo gravado na cidade.
E eu paro por aqui, para evitar spoilers impertinentes, acho que isso foi suficiente para dar uma noção da quantidade massiva de humor negro que o filme consegue condensar, se mantendo inteligente, o que é difícil. Geralmente, quando tanta coisa desse gênero se junta em uma película, ela tende a se tornar idiota. In Bruges foge dessa regra.
O drama que surge por volta do meio do filme ajuda a dar-lhe um peso diferente das comédias comuns e o enfoque da câmera alimenta uma espécie de surrealismo, que se apoia na ideia de “fairytale town” – uma cidade de contos de fadas – e causa um efeito interessante.
O filme só peca em ser um tanto exageradamente abstrato em alguns trechos, chegando a ser confuso às vezes. E o final é muito estranho. Ainda assim, a trama é espetacular. Vale a pena assistir. E merece um 8,5.

Especial | Lolita (Stanley Kubrick)

Colocar nas telas o psico-erotismo da literatura inglesa não é para qualquer um. A chance de alcançarmos um pornô com um roteiro confuso é grande. Bem grande. BUT, estamos, aqui, falando do Kubrick, certo? Lolita, produzido em 1962, é baseado em um livro homônimo de 1955, de Vladimir Nabokov, e trata a perversão e o fetichismo de maneira abusada, proporcionando ao diretor a inspiração necessária para a adaptação. 

A história trata-se de Humbert, um professor (que já possui características obssessivas) que se mudou da Europa para os Estados Unidos para lecionar francês e se instala no quarto vago de uma mansão cuja dona era uma viúva que precisava de amor. Entretanto, o foco está na filha da proprietária, Dolores, interpretada por Sue Lyon - que na época tinha apenas 16 anos - por quem Humbert nutre perversões obsessivas, relatadas em um diário. O louco se casa com a mãe dela SÓ pra ficar perto da menina. 

"UAL", é, forte, não é mesmo? Até o diretor comentou que se soubesse quão polêmica seria a censura contra o filme na época, nem o teria feito. FAIL, produção que não sabe apreciar a intenção provocativa das cenas que permitem ao público o benefício da imaginação e cortam partes essenciais da obra. Mesmo a escolha da atriz se deu por conta do tamanho de seus peitos de sua maturidade, para a interpretação da jovem Dolores, apelidada carinhosamente de Lolita. A censura fez com que, no filme, diferentemente do livro, a personagem tivesse ao menos 14 anos, e não 12.



Pois bem, essa não foi a única mudança feita. O termo "Lolita" é usado apenas por Humbert no livro. Para que a sexualidade da garota também não fosse tão "ultrajada" nas telas, a própria personagem tem seu teor sexualizado e provocante, diferentemente da "inocente" Dolores criada na obra de Nabokov. Visto que o livro é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Humbert, a narração é naturalmente mais perversa, fato obrigatoriamente retirado do filme, por conta da época, a fim de evitar uma vulgarização desnecessária.

É importante citar que o papel de Quilty, no filme, outro louco, que se disfarça de mil coisas (Hipster Equipe Rocket) confronta diretamente o professor psicótico. No livro, ele apenas aparece eventualmente e enche o saco. No filme, pelo contrário, a cena inicial ocorre no escritório de Quilty, enquanto Humbert lhe aponta uma arma. Durante o filme que tudo é explicado.

Outra versão foi feita em 1997, por Adrien Lyne. Desnecessário dizer que ele foi mais fiel ao livro, no entanto, mesmo com maiores recursos técnicos e possibilidade de aprimorar a adaptação, não se comparou ao filme de Kubrick, certo? Certo.

Lolita, mesmo sofrendo censuras, cortes e repreensões, conseguiu provocar o público, instigar o tema da pedofilia e, através do enredo, aflorar ideias sexuais secretas, abordando o fetichismo, a perversão existente dentro de cada um e o quão longe isso pode deixar-nos ir. É.

Ah, e o mais importante, o termo "Lolita", que se refere a jovens que, embora menores de idade, possuem corpo mais desenvolvidos e despertam desejos sexuais, se deve a este filme. É, meus caros, e vocês achando que esse tipo de putaria não era cultura, hein? Guilty pleasure, Kubrick apoia!

11 de março de 2012

Especial | O Iluminado (Stanley Kubrick)

“Heeeeeere’s Johnny!!!” – Essa, junto com muitas outras, é uma das frases que marcaram o que é uma das maiores obras de carreira de Stanley Kubrick. The Shining (O Iluminado em português) conta a história de um escritor fracassado, Jack Torrance (Jack Nicholson) que acaba enlouquecendo e tenta matar sua família ao passar o inverno como vigilante em um hotel isolado.


O longa de 119 minutos tem o roteiro adaptado do livro, de mesmo nome, do aclamado Stephen King, o qual se sentiu imensamente insatisfeito com a reprodução cinematográfica. “O filme é como um Cadillac sem o motor, você entra, sente o cheiro do couro, mas não pode ir com o carro a parte alguma”, disse King.

Por mais incrível que pareça, a crítica de Stephen King não foi a única, pois Shelley Duvall (Wendy) foi indicada ao Premio Framboesa como Pior Atriz, junto com Kubrick, o qual recebeu indicação para Pior Diretor. Confesso que, em minha opinião, se a votação para o prêmio de Pior Diretor fosse feita pelo elenco, Kubrick levaria a nominação, não pelo mal trabalho, seu talento é inquestionável, assim como sua persistência e seu temperamento.

A insistência de Kubrick era tanta que os atores tinham de interver, o perfeccionismo (muitas vezes duvidoso) exigido pelo diretor era absurdo. Como consta no livro, “O Clube do Filme”, David Gilmour, crítico de cinema, afirma que Stanley refez a cena em que Jack Nicholson persegue Scatman Crothers com um machado, quarenta vezes. “... vendo que Crothers, que já tinha 70 anos, estava exausto, Nicholson disse a Kubrick que já tinham tomadas suficientes – ele não a faria de novo”, relata Gilmour. Sem falar na famosa cena em que Jack persegue sua esposa com uma faca, essa foi feita 58 vezes.

The Shining é claustrofóbico, assustador. Nicholson estreia de maneira impactante ao dar vida ao escritor psicótico, loucura é seu forte. Loucura é o forte do filme como um todo. O conjunto de cenas perturbadoras e que mexem com os neurônios, formam uma coleção de obras primas. Com um lugar considerável na lista de Melhores Filmes de Terror, O Iluminado de 1980, é hoje tomado como clássico. Apesar do número infinito de críticas negativas, o topo do índice de elogios está parelho com o topo das reclamações, se já não o ultrapassou.


Especial | Laranja Mecânica (Stanley Kubrick)

Droogs, o post de hoje é HORRORSHOW! Obviamente, você (cinéfilo) percebeu que falarei de um clássico do cinema, o filme britânico Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971).
Adaptado do livro, de mesmo nome, do escritor inglês Anthony Burgess e dirigido magistralmente por Stanley Kubrick, o longa mostra uma Londres do futuro, mais precisamente do ano de 2050, totalmente dominada pela igreja e o Estado. É nesta cidade que vive o violento e sarcástico Alex DeLarge (Malcolm McDowell). Líder de uma gangue de delinqüentes que mata, estupra e rouba, Alex cai nas mãos da polícia. Preso, ele é usado em experimento destinado a refrear os impulsos destrutivos, porém acaba tornando-se impotente ao lidar com a violência que o cerca.
Antes de mais nada é preciso exaltar o trabalho de Kubrick com a câmera. Conhecido pelo uso de “travelling” tanto verticais quanto horizontais e seus planos de seqüências rápidas e ousadas, ele consegue prender a atenção do público do começo ao fim. Especificamente neste filme, Kubrick escolheu o melhor ator para o protagonista. A atuação de McDowell (The Artist, 2011) é tão crível que até hoje ele não conseguiu outro papel principal, pois é difícil não fazer uma relação entre ele e Alex. É curioso ver como o cineasta tem total controle dos seus atores, tanto que para desafiar Malcolm ele deu uma cobra de estimação para seu personagem. No entanto, detalhe: o ator tem fobia a este réptil.
O próprio título em inglês “A Clockwork Orange” é um jogo de palavras, pois o significado de clockwork é mecânico/programável e “orang” que na língua malaia tem o sentido de pessoa. É nisto que o Estado tenta transformar Alex, em um indivíduo mecânico. No filme, Alex, após ser preso, é obrigado a assistir cenas de ultra violência (atos que ele mesmo praticava) com o uso de drogas e ao som da 9ª Sinfonia de Beethoven, a qual ironicamente era sua música predileta. É neste momento que o Estado pune e acredita que após o tratamento o indivíduo está preparado para a sociedade. Mas a sociedade está pronta para ele?
Kubrick escancarou a realidade da época e atual, ao mostrar que o mundo é regido por dois tipos de violência: a do ser – humano, reprimida pelo convívio social e a do Estado, amparada pela lei e justificada pela manutenção do controle coletivo. A hipocrisia é que os indivíduos não conseguem aceitar o ex-prisioneiro do Estado e o recebe com a mesma violência que ele antes havia praticado. Graças ao diretor, podemos perceber o poder que a mídia tem sobre a sociedade, ao tirar o livre-arbítrio da população.
Ao final do filme, Alex em um emprego do governo, diz-se curado, não porque não pratica mais os atos horrendos, mas porque voltou a ser o antigo Alex, com sua ideologia e liberdade de praticar qualquer maldade, contanto que não prejudique a imagem do Estado. Esta é a hipocrisia atual, em que os políticos roubam do povo, no entanto, enquanto isto não for noticiado, não haverá punição.
Enfim, é um filme magnífico e cheio de originalidade (até o vocabulário, que é uma mistura de russo, inglês e gírias, foi criado pelo autor do livro). Desde a música eletrônica composta por Walter Carlos até “Singin in the rain” e a decoração meio anos 70 com móveis surrealistas, Kubrick é perfeito, não perde um detalhe.
Laranja Mecânica recebeu 4 indicações ao Oscar por Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. Foi proibido de circular pelo Brasil, sendo liberado em 1978, com as inesquecíveis bolinhas pretas sobre as genitálias dos atores. Kubrick criou um filme cult e inovador que, até hoje, é um marco na história do cinema.
Marina Demartini

10 de março de 2012

Especial | Stanley Kubrick

 Há 13 anos atrás, no dia 7 de março, os fãs do cinema perderam um dos maiores nomes do cinema. Dizer que  toda a carreira de um diretor, produtor, roteirista e cinegrafista é raro no que diz respeito ao mundo dos longas. É fácil deslizar. No entanto, no que se trata de Kubrick, que produziu vários filmes listados entre os clássicos que inspiram os filmes produzidos até hoje, o diretor é digno de destaque para o especial do blog nesse final de semana.

Nascido em 6 de junho de 1928, a paixão do cineasta começou com a fotografia, pela câmera do pai, que ganhou aos 13 anos. O cinema veio a inspirar-lhe quando tinha vinte anos e passou a frequentar as exibições no Museum of Modern Art e outros de Nova York. Em 1951, com a produção de seu primeiro documentário notável, Day of Fight, o diretor já começou a marcar traços de sua produção, como o uso do travelling reverso (movimento em que a câmera se move em panorâmica para gerar efeitos de imagem).

Fear and Desire (1953), primeiro longa escrito por um amigo, do qual participou, foi um desastre. Killer's Kiss, de 55, já mostrou a alguns críticos o potencial do jovem, mas foi com Killing (1956), primeiro filme com produção e elenco profissionais de Kubrick que seu nome foi levado ao topo dos nomes do cinema. O filme conta com uma narrativa não linear, formato que inspirou diretores em muitos filmes até hoje. Sua boa relação com os atores com os quais trabalhava, sua habilidade (vinda da experiência fotográfica) para o manuseio das técnicas de câmera, foram técnicas que renovaram a forma de ver o cinema.

Lolita (1962) é uma prova do perfeccionismo do cineasta já visível perante o cenário da época. Ao se mudar para Inglaterra, Kubrick levou mais de um ano para encontrar a personagem que atuaria na adaptação do livro com o mesmo nome, que se trata de uma história em que um professor se torna obcecado por uma de suas alunas. De acordo com certos críticos, foi o marco entre o naturalismo e o surrealismo de seus filmes posteriores.

2001: space odssey (1968) levou cinco anos para que o diretor adquirisse o resultado que queria: a música exerceu um trabalho maior que o dos filmes produzidos até então, o filme tratava, muitos anos atrás, sobre uma ficção científica futurista criativa e inovadora.

Deixando de lado técnicas cinematográficas que debateremos ao longo deste final de semana, observamos que Kubrick teve então uma série de clássicos sendo produzida: A Clockword Orange (1971), Barry Lindon (1975), The Shinning (1980), Full Metal Jacket (1987) e Eyes Wide Shut (1999). Logo depois da edição de  Eyes Wide Shut, o diretor faleceu.

No entanto, o que permaneceu foi a sua maneira diferenciada e criativa de transmitir ao expectador um novo olhar sobre o cinema a partir do cenário, as boas atuações, devido às boas relações dentro dos estúdios, pelo diretor que procurava se relacionar da melhor forma com a equipe, as técnicas de filmagem que inspiram os diretores até hoje, o bom uso da trilha sonora e seu legado que será sempre colocado como clássico dentro do cinema, mesmo que, em um ponto de vista parcial e crítico, só tenha recebido um Oscar, por melhores efeitos especiais.

9 de março de 2012

Estreias da Semana (de 09/03 a 15/03)

John Carter -Entre dois Mundos (John Carter)

Aventura/fantasia
EUA, 2012
Direção: Andrew Stanton
Classificação: 12 anos
Duração: 132 minutos

O filme é a adaptação do primeiro dos onze livros da série Barsoon, A princesa de Marte. O livro, escrito em 1917, só foi traduzido para português em 2010. A história é direta: John, ex-veterano de guerra, é mandado para marte, sem saber como, a fim de ajudar a princesa Dejah Thoris a se libertar da ditadura local. Política não está fácil pra ninguém, nem em marte! Veja o trailer aqui.



W.E. - O Romance do Século (W.E.)

Romance
Inglaterra, 2011
Direção: Madonna (!)
Classificação: 14 anos
Duração: 119 minutos

Sim, é o filme dirigido pela Madonna. Não, não aparece a Madonna nele. O filme retrata o amor proibido do rei Edward VIII com uma plebeia divorciada, Walls Simpson, na década de 30. Paralelamente, há a presença de Wally, nos tempos de hoje, uma mulher que não tem um dos melhores casamentos do mundo e é obcecada pela história de amor do casal. Tá, né? Aqui o trailer.



O Pacto (Seeking Justice)

Suspense
EUA, 2012
Direção: Roger Donaldson
Classificação: 14 anos
Duração: 105 minutos

O protagonista, vivido por Nicolas Cage, tem a chance de se vingar contra quem cometeu o estupro de sua mulher. No entanto, ao envolver-se com esses vingadores, ele se percebe refém deles. Pode ser um filme policial comum, ou não. Discussões sobre serão realizadas depois. Além d'O Motoqueiro Fantasma, não tenho visto muitos filmes bons do Nicolas Cage. De qualquer forma, o suspense pode surpreender (risos). Confira o trailer.


O Porto (Le havre)

Comédia/drama
França/Alemanha/Finlândia, 2011
Direção: Aki Kaurismaki
Classificação: 12 anos
Duração: 93 minutos

O filme mostra, de maneira até bem humorada, a história de um pescador que abriga imigrantes ilegais dentro de um contêiner em sua casa, como forma de ajudá-los. Preciso assistir para entender onde está a comédia da história. Anyway, o trailer aqui.





Cairo 678

Drama
Egito, 2010
Direção: Mohamed Giab
Classificação: 14 anos
Duração: 100 minutos

Três mulheres totalmente diferentes lutam por melhoria de direitos contra o assédio sexual e as humilhações que é realidade da maioria delas no Egito, assim como suas dificuldades para receber visibilidade dentro de tal âmbito. O trailer é atraente, mas a divulgação no Brasil foi lenta (Note que o ano de produção é 2010).




EM PONTA GROSSA:

Os cinemas de Ponta Grossa contam com a estreia d'O Pacto e John Carter. Permanece em Cartaz A Mulher de Preto, Anoitecer, Billi Pig e Cada um tem a Gêmea que Merece no Cine Araújo.
No Cine Lumière, além de John Carter, permanece em cartaz Anoitecer, Motoqueiro fantasma, Reis e Ratos, a Viagem 2 e Cavalo de Guerra.

Os horários de cada cinema você encontra aqui e aqui, respectivamente.

Patrick Inada

On The Road - Trailer oficial acaba de sair!


Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, o longa é uma adaptação do livro, de mesmo nome, do escritor americano Jack Kerouac. O filme será uma co-produção entre França, Estados Unidos, Brasil e Inglaterra, a partir de um projeto entre Salles e Francis Coppola, que adquiriu os direitos de adaptação do livro há 30 anos.

O elenco inclui Garrett Hedland (“Tron Legacy”) como Dean Moriarty, inspirado em Cassady, e Sam Riley (“Control”) como Sal Paradise, espelho de Kerouac. Ainda tem a presença de Kristen Stewart (Twilight), que interpretará Mary Lou, e da brasileira Alice Braga.

O trailer oficial acabou de cair na internet em uma world premiere promovida pela página oficial do facebook do longa, só é preciso curtir neste link: http://www.facebook.com/official.ontheroad?sk=app_282954348437940 e ir para a barra onde está escrito "Exclusive Contents".
Por Marina Demartini

8 de março de 2012

Crítica | Beleza Americana



O longa mostra a trajetória de Lester Burnham (Kevin Spacey), um típico cidadão norte-americano que vive uma mentira – sua família o odeia, principalmente sua mulher que ainda está casada com ele só por aparência.

A melhor parte de seu dia é quando fica sozinho no banheiro, masturbando-se, esquecendo o drama que é seu trabalho e seus familiares. O seu estado próximo a loucura chega ao ápice quando conhece a amiga de sua filha, a desbocada Ângela Hayes (Mena Suvari); a partir desse acontecimento, Lester decide mudar o caminho que percorria: começou a malhar, largou o trabalho que odiava – chantageando seu chefe, conseguiu um emprego em uma lanchonete, fumava maconha com seu vizinho que filmava tudo que sua filha fazia e finalmente adquiriu o carro esportivo que almejava.

Lester é apenas mais um ser – humano dominado pelas garras da sociedade moderna; ele aparenta ter uma família e um trabalho perfeitos, porém vive como um ator coadjuvante de sua própria vida; ele está tão desanimado com tudo e todos e o único escape foi a sexualidade exacerbada de Angela.

A partir dos estudos de Sigmund Freud sobre a psicanálise humana pode-se entender que a identidade (o inconsciente, regido pelo prazer) estava se sobressaindo do superego (valores e formação recebida pela família e pela sociedade, a moral), então Lester, um pai de família estava transformando-se em um irresponsável adolescente, pois sonhava com uma garota muito mais nova que ele, por vezes até parecia que sofria do Complexo de Édipo ao contrário, porque era ele que tinha manifestações fantasiosas de incesto por sua filha; enfim, ele estava vivendo uma realidade psíquica. Para o Sr. Burnham, tudo que ele fazia era a mais pura verdade, independente do que as pessoas falassem. Tudo que ele sonhava estava virando realidade.

Quando chega ao final do filme, Lester não consegue fazer sexo com Angela, porque ela era virgem e é neste momento, ironicamente, que ele liberta-se do teatro que participava, – leva um tiro de Frank, o vizinho que pensava que Lester mantinha relações homossexuais com seu filho – pois pela primeira vez ele torna-se protagonista de sua vida.

Com um elenco extraordinário, Beleza Americana reúne o belo e a lição de moral, ao motivar o público a ter uma vida mais significativa. Este filme é para as pessoas que querem ser chocadas visualmente e maravilhadas pelo roteiro sem escrúpulos.
Marina Demartini

7 de março de 2012

Série | Revenge

Com a volta do serviço do blog, a equipe d'A Bilheteria resolveu abrir espaço para o gênero televisivo das séries, que, muitas vezes, possuem qualidade de produção, atuação, cenário, direção e roteiro tão merecedores de atenção quanto os longas cinematográficos.

Todos já ouviram falar da história d'"O Conde de Monte Cristo", obra do mesmo escritor d''Os Três Mosqueteiros", Alexandre Dumas. O livro foi concluído em 1844, e é um clássico da literatura francesa e já deu origem a algumas adaptações cinematográficas. No entanto, o canal ABC inovou a inspiração do livro e adaptou-a para a série que teve estreia em 2011, Revenge.


Enquanto na obra um marinheiro é preso injustamente e, depois de fugir da prisão, resolve se vingar, na série, encontramos uma personagem que busca justiça pela prisão de seu pai enquanto ela era apenas uma criança. A sinopse, embora sugira algo frio, contradiz o ritmo real da série.

Protagonizado por Emily VanCamp, que troca sua identidade para retornar ao Hampton, local em que habitava com seu pai, a personagem (também Emily) busca eliminar, um a um, os causadores de sua infância presa e da morte de seu pai na prisão.

O que poderia ser simples ganha um ar diferente quando, após "lermos" sobre quem é Emily Thorne, experienciamos um episódio da série. Com um sorriso envolvente de Monalisa, a protagonista arquiteta planos, utilizando a fortuna que foi guardada por seu pai para que ela pudesse se reestruturar ao sair do reformatório, e consegue, ao mesmo tempo, não apenas cativar, mas também surpreender o expectador.
Há uma eterna dúvida quanto aos seus sentimentos, suas amarguras, sua dor e seu rancor que, ao se misturarem, podem fazê-la tão frágil quanto perigosa.

Além de VanCamp, há a presença de Madeleine Stowe, atriz que interpreta principal culpada pela prisão do pai de Emily, e, ironicamente, era o amor dele. Em uma relação de desconfiança, as duas se mostram tão bem escolhidas para seus papeis que não se poderia imaginar qualquer outra pessoa em seus lugares. Um drama com um certo suspense e um ar de romance misturado em uma série que, em menos de uma temporada já foi nomeada a vários prêmios, como o People's Choice Awards e ganhou como favorite guilty pleasure o TV.com Awards, promete.

Você já viu um filme diferente hoje?

Na primeira coluna sobre o tema “Cinema Independente ou Alternativo” do ano, me coloquei a pensar o que o leitor gostaria de ler sobre o tema nessa coluna, mas, para a minha surpresa, foi realmente difícil pensar em algo propício para a primeira coluna do ano sobre um assunto não muito explorado.

Então, nesse espaço, irei fazer uma breve iniciação sobre o tema, sugerindo filmes para que possa sair um pouco da área comercial Hollywoodiana e desbravar outros modos de se fazer cinema pelo mundo. Consideramos nesse espaço não apenas aqueles filmes cuja sua produção não está vinculada a uma grande produtora, ideia básica de um filme independente, mas sim, filmes cuja a dificuldade de aproximar do público, principalmente brasileiro, impede uma competição com o mercado americano.

Um dos principais expoentes de produção cinematográfica é a França, palco de diversas produções artísticas, o país se destaca também na sétima arte. O jeito romantizado de algumas produções é contrastantemente influenciado pelas demais artes do país, mas ainda sim o cinema francês tem característica próximas a sua sociedade.

Enquanto os jovens manifestavam suas opiniões nas ruas, o cinema de Godard, movimento conhecido como “Nouvelle vague” era uma tansgressão as regras habituais e convencionadas aos longas da época. 
Godard, ícone francês
Recentemente o cinema francês apresentou alguns excelentes filmes, como Le fabuleux destin d'Amélie Poulain de Jean-Pierre Junet, entre outros.

O Cinema indiano geralmente está associado ao absurdo de algumas produções de Bollywood, principalmente em filmes de ação. Por causa do barateamento das obras, muitas vezes os filmes indianos são apresentados como produções ridículas, porém, o país é o que mais produz longas e tem alguns ótimos filmes e profissionais competentes na área.

O jogo de cores é um ponto predominante no cinema indiano, o uso de uma fotografia que contrasta todo o ambiente é utilizada amplamente pelos diretores, tal qual muitas cenas de dança, música e movimentos típicos. Uma coisa interessante a se notar do cinema indiano é que Bollywood é apenas um dos lugares de se produzir cinema no país, mas geralmente é colocado como todo o cinema indiano.

O Cinema Argentino é um dos principais da América Latina, talvez o mais elogiado. Algumas características dos filmes argentinos que apontam para essa qualidade é o realismo das produções. Outros lugares interessantes que tem um cinema forte e com uma produção constante são: Irã, Japão, Espanha, México, Chile, Russo e Chinês

5 de março de 2012

Crítica | Apocalypse Now

Em uma lista feita para os 100 melhores filmes de guerra feito pela revista “Aventuras na história” a obra eleita como melhor filme de guerra dividiu opinião entre os críticos e cineastas, apesar de que a maioria dos 14 críticos colocaram “Apocalypse Now” de Francis Ford Copolla, entre os três primeiros. Apesar de competir com filmes que se mostram realista, Apocalypse Now fatura a preferência (acredito) por abordar a guerra com suas e excentricidades.

Hitchcock em um livro de conversas que foi realizado pelo cineasta e crítico francês, François Truffaut, relata que terminadas situações da rotina ou regras regulam as normas e as excentricidades de um grupo. Hitchcock sempre citava que sua vida na Inglaterra, sendo ele católica em um país de maioria anglicana foi cheia de excentricidades. Apesar da falta de direcionamento de temas o que estou procurando é apresentar que a guerra que Coppola filmou, ultrapassa as idéias do real e transfere aos filmes simplesmente todo horror e complexidade da guerra. Apocalypse Now é baseado no livro Heart of Darkness (Coração das Trevas) de Joseph Conrad.

A história se passa em 1967 na Guerra do Vietnã, onde o capitão do exército estadunidense, Willard (Martin Sheen) e enviando de volta ao Vietnã com a missão de matar o coronel Kurtz (Marlon Brando) do exército dos Estados Unidos. Willard inicia a missão com 4 soldados que percorrem o rio do Camboja para encontrar o coronel enlouquecido e adorado pelos nativos do Vietnã. No fim da viagem Wilard completa a missão, mas se sente destruído pelas perversidades do universo dos conflitos.

A estética de Apocalypse Now foi trabalhada por Vitorrio Storaro, um italiano que também trabalhou na fotografia de Bernardo Bertolucci com “O Último Imperador” e “O Céu que nos Protege”. Vittorio identifica-se com cenas mais longas e com a composição de intensidade de cores e iluminação focada. Apocalipse Now, não é apenas mais um longa sobre um passado remoto e que decodifica um choque cultura, mas simboliza como os homens que parecem tão fortes, mostram-se frágeis e simples diante dessa esfera complexa de uma guerra particular.
Gildo Antonio

29 de fevereiro de 2012

Crítica | Howl


"Éramos só um bando de escritores que queríamos ser publicados", é com esta frase que Allen Ginsberg resume a geração beatnik. Não entendeu? Vamos às explicações. Ginsberg, então em 1957, um jovem escritor conhecido no circuito da cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, torna-se um dos expoentes desta geração pós-segunda guerra com a publicação do poema “Howl”.

Considerado ‘obsceno’ pois em suas linhas há utilização de palavrões, referências que explicitam ao sexo (tanto hétero quanto homossexual) e ao uso de drogas, a obra foi levada a julgamento. É a partir deste contexto que Rob Epstein e Jeffrey Friedman, diretores do longa, filmam os momentos obscuros vividos pelo autor deste poema que mudou o modo americano de ver a cultura.

Apesar de não ser um filme incrível, vale a pena ser visto pelo tipo de filmagem utilizada em três expectativas: a de Ginsberg, com um leve tom de biografia, sobre seus primeiros anos de faculdade, quando conheceu Jack Kerouac, suas paixões e inspirações de seus poemas; a mistura de desenho animado meio psicodélico, ao maior estilo Pink Floyd, com trechos da poesia interpretada por Allen em preto e branco; e também o processo de julgamento contra o dono da City Lights Bookstore, editor que publicou a coletânea que continha o poema.

Interpretado magistralmente por James Franco, o Harry Osbourn de Homem-Aranha, com um elenco de ótimos atores como Jeff Daniels, Mary-Louise Parker e Paul Rudd, “Howl” não é um filme que concorreria ao Oscar, porém questiona qual seria o verdadeiro modo de expressão dos escritores. Para quem ama poesia, é uma ótima pedida.
Marina Demartini

3 de fevereiro de 2012

Crítica | Rango

"My character's undefined? That's absurd! I know who I am. I'm theeee....I'm the guy! The protagonist, the hero"


...

Fim das férias, então?

Nada melhor do que voltar a ativa falando sobre o Oscar, o maior prêmio do cinema mundial, a entrega da gloriosa e imponente estatueta dourada, concedida apenas àqueles heróis, cujas obras ficarão na história do cinema e na imaginação do povo para todo sempre, certo?

Heh... De minha parte, nunca gostei muito da premiação. Na verdade, não dou muita bola mesmo. Um crítico cinematográfico que se preze deveria estar a par de tudo isso, mas eu não tenho a presunção de me dar qualquer préstimo.

E ainda tem gente que lê o que eu escrevo...

Très bien, ao invés de me dobrar à mídia e assistir um dos filmes por eles indicados (mentira, deu preguiça de ir atrás), eu escolhi um dos dois indicados que eu já havia assistido. Uma animação. Do caralho.

E, para justificar minha escolha e meu ponto de vista, devo dizer que meu pai tem uma extensa coleção de gibis de faroeste. Eu cresci lendo as incríveis histórias de cowboys cavalgando pelas pradarias. Heróis miseráveis, rústicos e austeros, que ostentavam um admirável código de honra e conduta. E faziam-lhe valer com dois Colts na cintura e um Winchester em punho.

Minha escolha, assim sendo, é Rango. O filme carrega o nome do protagonista, um herói inteligente, insano e adepto de uma boa verborragia – como alguns dos melhores heróis que conheço – que lembra os trejeitos de seu dublador, Johnny Depp. Rango é um camaleão que vive em um aquário, com um peixe de brinquedo, uma barata e meia boneca. Até que tudo isso cai de uma camionete em movimento e se espatifa no asfalto da highway que leva à Las Vegas.

A queda é uma cena interessante, com uma ponta dos protagonistas do excelente “Medo e Delírio em Las Vegas” – sobre o qual ainda vou escrever aqui – que passam por essa mesma estrada, no seu grande conversível vermelho, cheio de drogas. Aliás, Rango lembra um pouco Hunter Thompson, o protagonista de “Medo e Delírio”.

O filme segue, Rango vai parar em uma cidade no meio do deserto, que sofre com problemas de abastecimento de água e o assédio de bandidos. Uma escancarada paródia dos antigos westerns que fizeram parte da infância de muita gente, com direito a sotaques sensacionais (recomendo assistir legendado), uma bela dama (nem tanto), duelos ao meio dia, grandes parceiros, pistoleiros, ladrões, trapaceiros, charlatões e canalhas de toda espécie.

Além disso, é carregado de referencias a diversas outras produções de outros gêneros. Por exemplo, tem uma cena de perseguição aérea, regida pela épica Cavalgada das Valquírias, que remete à Star Wars e Apocalypse Now de uma pegada só. Rola, também, uma em que Rango percebe a si mesmo em um deserto extremamente branco. A situação e as atitudes do lagarto nesse lugar lembram muito do capitão Jack Sparrow, quando preso no “Fim do Mundo” pelo temível Davy Jones.

Pode-se dizer, enfim, que o filme se parece muito com seu protagonista. Ambos não possuem uma identidade própria ou uma personalidade definida, sem que isso seja um defeito.

Contudo, todo esse êxtase de piadas inteligentes, insanidade, e referencias geniais divide o tempo da película com certos momentos, tiradas e trejeitos um tanto cansativos e exagerados. Gore Verbinski, o diretor – o mesmo de Piratas do Caribe – não conseguiu alcançar o equilíbrio perfeito e alguns trechos esparsos no filme te fazer desejar que ele acabe logo. E a maioria dos personagens é malditamente feia!
Ainda assim, é uma bela obra, uma admirável homenagem aos grandes do faroeste que mereceria a estatueta. Mas não acredito que vá ganhá-la, sua formula é diferente, de um jeito que eu não acho que o Oscar vá apreciar devidamente.

Enfim, recomendo de verdade, principalmente se você cresceu acompanhando as aventuras destes grandes homens, como Clint Eastwood, John Wayne e Tex Willer. E as corujinhas mariachis são fodas.


Crítica | Os Homens Que Não Amavam As Mulheres


Encarregado de fazer a difícil tarefa de dar vida (novamente) ao Best-seller de Stieg Larsson, David Fincher teve um grande compromisso com os fãs da saga sueca e principalmente com os cinéfilos, que não recebem remakes de braços abertos.

Os Homens Que Não Amavam as mulheres conta com Daniel Kraig interpretando o jornalista Mikael Blomkvist que, após ser condenado pela mídia ao ser acusado por difamação, é procurado por um velho milionário para desvendar o suposto assassino de sua sobrinha predileta, Harriet, ocorrido há décadas. A vida de Blomkvist se cruza com a hacker Lisbeth Salander (a indicada ao Oscar, Rooney Mara), quando o jornalista descobre que foi assunto principal de um dossiê completíssimo e ilegal feito pela jovem perturbada. Ao desenrolar da história, Salander e Blomkvist compartilham suas habilidades a favor do desvendamento do crime.

Por ser uma segunda adaptação cinematográfica para o romance, é inevitável a comparação da obra de Fincher com a obra sueca de Niels Arden Oplev. De início podemos notar que o investimento foi muito maior na segunda versão, a qual fez maior proveito dos detalhes importantes fornecidos no livro, o que de certa forma, deu maior satisfação aos leitores. Em contrapartida, com relação aos atores não há nada a ser desmerecido na versão de 2009, os suecos desempenharam-se tão bem quanto os da versão mais recente.

Millenium 1 passou pelos olhares críticos e como resultado está concorrendo a 5 estatuetas de ouro, entre elas destaca-se, a já citada anteriormente, a indicação de Rooney Mara como melhor atriz. Mara mostra-se impecável ao desempenhar extremos, em contrapartida, deixa a desejar em cenas de diálogo simples; A atriz apresenta-se experiente ao julgar pelos poucos anos de trabalho.

Além desta categoria, o filme de Fincher também concorre nas categorias: Fotografia, Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som, questões técnicas que foram minuciosamente trabalhadas. Quanto a fotografia não podemos negar que a “beleza branca” do inverno sueco colaborou nas imagens, mas que em questões mais simples (o enquadramento vindo de cima no rosto de Bjurman e de Lisbeth) também foram geniais. Quanto ao som, na cena em que a jovem perturbada encontra-se tranqüila em seu apartamento, ocupada com o computador, podemos notar a atenção que a equipe de som teve. Conseguimos ouvir barulho de uma banda (deixando a impressão certa de que ela mora em lugar agitado), um bebê chorando, risadas no corredor e barulhos de carro na rua, detalhes simples que passam a perfeita noção de normalidade.

Apesar das cinco indicações, vale lembrar que o roteiro de Steve Zaillian foi injustamente esquecido na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, já que Zaillan foi muito competente na adaptação do romance. Ao contrário da versão cinematográfica sueca, em que muitas partes o telespectador se perdia e ficava sem respostas, na nova versão o filme se desenvolve claramente.

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres chamou a atenção da crítica e dos telespectadores e a boa impressão é mérito da experiência de Fincher e de sua cobrança quanto à atuação. Terminado o filme, a sensação que fica é a de satisfação, tanto dos cinéfilos, como dos amantes de um bom romance.

30 de janeiro de 2012

Crítica | O Homem que Mudou o Jogo

Minha angustia ao saber que será lançado um novo longa sobre esportes vem dos temíveis filmes de cachorros desportistas, mas parece que, finalmente, repensaram o gênero. Moneyball é um filme que demonstra o sucesso dessa reforma. Apontado como um dos melhores do ano por crítica e indicado à 6 estatuetas (entre elas a de Melhor Filme), o projeto do diretor Bennet Miller (Capote, The Cruise) é um exemplo para como deve ser feito filmes sobre esporte.


O jogo de imagens contrastando as cenas do filme com as imagens reais dão um tom estranho ao filme, no sentido mais positivo da palavra. A quebra das cenas com cortes rápidos para as imagens “reais” faz parecer que tudo foi categoricamente feito pensando no filme, mesmo que ali tenha acontecido de verdade. Miller conseguiu usar esse efeito em boa parte do filme, sem torná-lo massante.

Todas as limitações que circulam a atuação baseada em um personagem real, ainda mais tão recente como Billy Beane, não foram problemas para Brad Pitt, quando vemos Beane ansioso na hora do jogo, tentando se distrair, o aperto que nos dá querendo empurrar o personagem para o jogo aponta que funcionou a ideia do diretor. Em vez de focar no jogo em si, preferiu demonstrar que o personagem principal ficava mais nervoso que aqueles que estavam dentro de campo. que volta a concorrer o Oscar. Brad encarna, com perfeição, o drama que entorna a vida do gerente esportivo, tanto na sua relação com sua filha, como com a ex-esposa e com o atual marido dela, mas os grandes momentos se dão nas conversas com seu companheiro Peter Brand e com os olheiros do time.

A atuação foi um campo cheio de boas aventuras no filme, além de Brad Pitt, Jonan Hill(Superbad) fez uma atuação excelente, sendo indicado para o Oscar como ator coadjuvante. Ele conseguiu tirar aquela imagem do “gordinho frustrado” que sempre segurou nos outros trabalhos de sua carreira, entrando no personagem com suas inseguranças vista no balançar nervoso das mãos quando falava com o chefe no começo do longa até o “relaxamento” quando começaram a se tornar mais intimo.as os grandes momentos se dão nas conversas com seu companheiro Peter Brand e com os olheiros do time.

Outros atores também se destacaram, como Philip Seymour Hoffman (Doubt, Capote) como o Treinador Art Howe, principalmente nas cenas de discussão com Billy Beane. A jovem Kerris Dossey também foi muito bem, representando a filha de Billy.

O filme é um forte candidato ao Oscar, pois se diferencia pela dramatização do esporte e pode ser um marco nesse gênero. Se falta ação, que pode ser questionado por alguns fãs de baseball, as cenas onde uma atuação elegante dá o tom e a classe demonstra que um filme sobre uma realidade tão atual pode ser bem produzido, ser parecido com o que realmente aconteceu e ao mesmo tempo ser agradável aos fãs da sétima arte.

2 de dezembro de 2011

Crítica | Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto



“Vocês todos parecem farinha do mesmo saco”, frase dita por Andrew Hanson (Philip Seymour Hoffman), o protagonista do filme “Antes que o diabo saiba que você está morto” obra do diretor estadunidense Sidney Lumet. O filme conta a história do assalto dos irmãos Andrew Hanson e Hank Hanson (Ethan Hawke), à joalheria dos próprios pais, porém o que acontece e que Nanette Hanson (Rosemary Harris), a mãe de Andrew um executivo viciado em drogas e de Hank um homem que não consegue pagar a pensão da própria filha, é ferida durante o assalto a joalheria.

“Antes que o diabo saiba que você está morto” encerra o ciclo de filmes do projeto Tela Alternativa, mas não significa que acaba as críticas acabam por aqui, pois utilizaremos das férias para comentar e continuar a indicar filmes e produções audiovisuais para você.

Continuando a analise, “Antes que o diabo saiba que você está morto”, em primeiro momento Lumet explora o choque familiar dramático da família Hanson, isso pela escolha em aplicar eutanásia em Nanette, (que teve morte cerebral após ser vitima do assalto), e tudo acaba por ser decisão do pai de Andrew e Hank, Charles Hanson. Charles jura vingança aos assaltantes da joalheria, sem saber que eram seus filhos os responsáveis pela morte de Nanette.

O filme não segue uma linearidade cronológica isso porque Lumet apela a uma nova estética cinematográfica, mesclando um estilo próximo ao New Hollywood. Lumet como está em um artigo anterior, iniciou sua carreira cinematográfica com a exposição de cineastas autorais como Stanley Kubrick e John Cassavetes. No entanto e perceptível que Lumet em “Antes que o diabo saiba que você está morto”, tentou mesclar um estilo artístico a sua linguagem televisiva. No entanto como esclarece o próprio Lumet “existem filmes que não deveriam ser exibidos na TV”. Diria que “Antes que o diabo saiba que você está morto” é um dos filmes que entra na lista dos não televisivos.

Outros dramas ocorrem durante o filme, um deles é o caso que Hank tem com a Gina (Marisa Tomei) esposa de seu irmão Andrew. O fato e que por problemas financeiros, Andrew e Hank apelam ao assalto à loja dos pais, como forma de solucionar os seus problemas. No entanto Lumet queria destacar o descontrole do sonho americano, onde todos buscam um lugar no paraíso. Esse pensamento se confunde em alguns momentos do filme como uma forma de fuga e escapismo, como acontece com o desejo de Andrew em morar no Rio de Janeiro, mas o Rio acaba apenas por formar uma imagem de um desejo, um sonho a ser realizado.

A obra mostra muito o descontrole humano, isso em todos os momentos marcantes do filme o descontrole dos personagens se torna evidente. No entanto esses fluxos ocorrem pela ótima interpretação dos personagens, em destaque para Philip Seymour Hoffman no papel de Andrew. As situações no fim do filme são as mais tensas com a morte de Andrew, assassinado pelo pai Charles em uma cama no hospital, após ser baleado. Lumet desenvolveu uma contraproposta em relação a “Um dia de cão” uma das obras primas de Lumet e que explora um assalto a partir da perspectiva dos assaltantes. “Antes que o diabo saiba que você está morto” compõe uma trama conforme as conseqüências de um assalto a partir da ruína que se torna a vida das vítimas do incidente. Mais do que imprevisto Lumet destrói a fama do sonho americano e revive os fortes sentimentos da raiva familiar.

Gildo Antonio